O país das oportunidades adiadas 

Há uma frase que ouvimos frequentemente quando falamos da economia portuguesa: "Portugal tem um enorme potencial." Ouvimo-la há décadas. Surge sempre que discutimos energia, turismo, tecnologia, indústria, logística, habitação ou inovação. E, na verdade, é uma afirmação correta. O problema é que o potencial, por si só, nunca criou riqueza. O que transforma potencial em desenvolvimento é a capacidade de decidir, executar e concretizar. 
Nos últimos meses escrevi sobre temas muito diferentes. Falei da economia do espaço, da indústria da defesa, dos centros de dados, do nearshoring, da inteligência artificial, das energias renováveis, da habitação e da logística. À primeira vista parecem setores independentes, cada um com os seus desafios. Mas quanto mais os acompanho, mais percebo que todos acabam por esbarrar exatamente no mesmo obstáculo. 
Não é a falta de investimento. 
Não é a falta de talento. 
Não é a falta de tecnologia. 
É a dificuldade que temos em transformar oportunidades em realidade. 
Os números recentemente divulgados pela APREN são talvez um dos melhores exemplos. Existem cerca de 60 mil milhões de euros em investimentos nas energias renováveis que continuam bloqueados por processos administrativos, limitações da rede elétrica e atrasos no licenciamento. Cada ano que passa representa cerca de 1,7 mil milhões de euros de receita fiscal que o Estado deixa de arrecadar. Ao mesmo tempo, Portugal é um dos países europeus com maior incorporação de energias renováveis e tem todas as condições para se tornar uma referência na produção de energia limpa. 
A oportunidade existe. 
A execução continua atrasada. 
Mas esta realidade está longe de ser exclusiva da energia. 
Na habitação sabemos há muito tempo que faltam casas. Multiplicam-se estudos, diagnósticos e programas, mas continuamos a construir menos do que o país necessita. Os licenciamentos continuam lentos, os planos de ordenamento demoram anos a ser atualizados e as decisões passam por uma cadeia de entidades que muitas vezes não comunica entre si. 
Na indústria, ouvimos frequentemente falar de empresas internacionais interessadas em instalar unidades de produção em Portugal. O mesmo acontece com centros tecnológicos, plataformas logísticas, projetos ligados ao hidrogénio verde ou grandes centros de dados. Em praticamente todos os casos, o entusiasmo inicial acaba por ser substituído pela mesma pergunta: quanto tempo demorará a obter todas as autorizações? 
Infelizmente, ninguém consegue responder com rigor. 
E essa incerteza tem um custo. 
Os investidores conseguem lidar com regras exigentes. Conseguem adaptar-se a requisitos ambientais rigorosos e a padrões elevados de qualidade. O que dificilmente conseguem aceitar é a ausência de previsibilidade. Um projeto não falha apenas porque é recusado. Muitas vezes falha porque ninguém consegue dizer quando será decidido. 
Talvez este seja um dos maiores desafios da Administração Pública portuguesa. Durante décadas fomos acumulando procedimentos, pareceres, autorizações e entidades com competências sobrepostas. Fê-lo com boas intenções: proteger o território, garantir transparência, assegurar o cumprimento das regras. Mas, pelo caminho, criámos um sistema onde decidir passou a ser mais difícil do que analisar. 
E quando tudo depende de todos, raramente alguém assume verdadeiramente a responsabilidade pelo resultado. 
Não acredito que Portugal precise de menos exigência. Também não acredito que a solução passe por eliminar controlos ou reduzir a proteção ambiental. O desenvolvimento sustentável exige precisamente o contrário: decisões bem fundamentadas e responsáveis. 
O que precisamos é de um Estado que consiga decidir em tempo útil. 
Hoje fala-se muito em simplificação administrativa e digitalização. São passos importantes, mas insuficientes. Digitalizar um processo lento não o torna necessariamente mais rápido. Apenas transforma a burocracia em burocracia digital. 
O verdadeiro desafio é reorganizar a forma como o Estado decide, coordena e executa. 
Tenho defendido várias vezes que a competitividade de um país já não depende apenas dos seus recursos naturais ou do custo da mão de obra. Depende da qualidade das suas instituições. Depende da confiança que transmite aos investidores. Depende da rapidez com que responde às oportunidades que surgem. 
O mundo mudou profundamente. 
Os investimentos internacionais já não escolhem apenas países. Escolhem ecossistemas. Avaliam energia, talento, universidades, logística, estabilidade política, infraestruturas, capacidade tecnológica e, cada vez mais, a eficiência da administração pública. 
Portugal reúne muitas destas condições. 
Tem talento reconhecido internacionalmente. 
Tem universidades que produzem conhecimento. 
Tem empresas inovadoras. 
Tem localização estratégica. 
Tem uma das matrizes energéticas mais limpas da Europa. 
Tem qualidade de vida. 
Tem estabilidade. 
O que continua a faltar é transformar todas estas vantagens numa capacidade consistente de execução. 
Talvez por isso continuemos tantas vezes a celebrar intenções em vez de resultados. 
Anunciamos investimentos antes de existirem licenças. 
Celebramos estratégias antes de existirem obras. 
Falamos de metas antes de existirem projetos concluídos. 
Criámos uma cultura onde anunciar parece, por vezes, mais importante do que executar. 
Entretanto, outros países avançam. 
Não porque tenham necessariamente mais recursos do que nós. 
Mas porque conseguem transformar uma oportunidade numa decisão e uma decisão numa obra. 
Talvez esteja na altura de mudarmos a pergunta que fazemos ao país. 
Em vez de perguntarmos quantos projetos queremos atrair, talvez devêssemos perguntar quantos conseguimos concretizar. 
Em vez de criarmos mais estratégias, talvez devêssemos avaliar quantas das que já existem foram efetivamente executadas. 
Porque Portugal já não precisa de descobrir onde estão as oportunidades. 
Elas estão identificadas. 
Na energia. 
Na indústria. 
Na tecnologia. 
Na economia do espaço. 
Na inteligência artificial. 
Na habitação. 
Na logística. 
No mar. 
O verdadeiro desafio é outro. 
É deixar de ser o país das oportunidades adiadas para passar a ser o país das oportunidades concretizadas. 
Porque o futuro de Portugal não dependerá da nossa capacidade para fazer diagnósticos. 
Dependerá da nossa capacidade para tomar decisões. 
E, sobretudo, de as transformar em realidade. 
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