O recurso mais valioso de Portugal continua a sair pela porta do aeroporto
Durante décadas, Portugal habituou-se a acreditar que os seus principais desafios económicos resultavam da falta de recursos naturais, da dimensão reduzida do mercado ou da sua posição geográfica na periferia da Europa. Essa narrativa foi repetida tantas vezes que acabou por se tornar quase uma verdade adquirida. Mas basta olhar para aquilo que está a acontecer no mundo para perceber que o recurso mais valioso das economias modernas já não está no subsolo, nos portos ou nas fábricas. Está nas pessoas.
E é precisamente aí que Portugal enfrenta um dos seus maiores paradoxos.
Nunca tivemos uma geração tão qualificada. Nunca tivemos universidades tão bem posicionadas internacionalmente. Nunca tivemos tantos engenheiros, investigadores, cientistas, médicos, gestores e profissionais tecnológicos reconhecidos dentro e fora do país. No entanto, continuamos a assistir à saída de muitos dos nossos melhores talentos para outros mercados.
O mais curioso é que isto acontece numa altura em que o mundo procura exatamente aquilo que Portugal produz.
A economia global está a atravessar uma transformação profunda. A inteligência artificial, a digitalização, a automação, a transição energética e a crescente complexidade tecnológica estão a aumentar a procura por conhecimento especializado a uma velocidade sem precedentes. Países, empresas e investidores competem hoje pelo mesmo recurso: talento.
Enquanto no século passado a riqueza estava muitas vezes associada aos recursos naturais ou à capacidade industrial, o século XXI está a ser construído por pessoas capazes de criar conhecimento, desenvolver tecnologia, resolver problemas complexos e gerar inovação.
E Portugal tem essas pessoas.
O problema é que continua a ter dificuldade em criar condições para as reter.
Durante anos ouvimos que os portugueses emigravam apenas por razões salariais. Embora os rendimentos continuem a ser uma variável importante, a realidade tornou-se mais complexa. Muitos profissionais procuram ecossistemas mais dinâmicos, maior previsibilidade, carreiras mais rápidas, empresas com escala global e ambientes onde a inovação é encarada como prioridade estratégica e não apenas como discurso institucional.
É aqui que a questão se torna particularmente relevante para o futuro do país.
Quando um engenheiro formado em Portugal desenvolve a sua carreira em Londres, Berlim, Amesterdão ou Singapura, não estamos apenas a perder um trabalhador qualificado. Estamos a perder produtividade futura, capacidade de inovação, criação de empresas, liderança empresarial e potencial crescimento económico.
Estamos, na prática, a exportar valor acrescentado.
Ao mesmo tempo, existe uma enorme contradição no debate nacional. Passamos anos a discutir investimento estrangeiro, crescimento económico e produtividade, mas
raramente colocamos o talento no centro dessa conversa. E a verdade é que nenhum investimento relevante acontece sem pessoas qualificadas. Nenhum centro tecnológico funciona sem engenheiros. Nenhum projeto de inteligência artificial existe sem especialistas. Nenhum ecossistema de inovação cresce sem investigadores, empreendedores e gestores preparados.
O talento não é apenas uma consequência do desenvolvimento económico.
É uma condição para que ele aconteça.
A boa notícia é que o contexto internacional pode estar finalmente a jogar a favor de Portugal.
A crescente procura por qualidade de vida, a expansão do trabalho remoto, a procura por cidades mais equilibradas e a necessidade de atrair profissionais internacionais estão a criar oportunidades que não existiam há uma década. Hoje, Portugal já não compete apenas pela retenção dos seus jovens. Compete também pela atração de talento global.
As notícias multiplicam-se. Centros tecnológicos internacionais escolhem Portugal. Empresas de inteligência artificial instalam equipas no país. Universidades reforçam a cooperação internacional. Investidores procuram ecossistemas inovadores fora dos mercados tradicionais. O país aparece cada vez mais nos mapas da tecnologia, da energia, dos dados e da inovação.
Mas existe um detalhe fundamental que não pode ser ignorado.
Nenhum destes investimentos terá impacto estrutural se Portugal continuar a perder uma parte significativa do talento que forma.
A questão da habitação é um exemplo evidente. Um jovem engenheiro ou investigador pode encontrar hoje oportunidades profissionais interessantes em Portugal, mas se não conseguir construir um projeto de vida sustentável, a decisão torna-se mais difícil. O mesmo acontece com a burocracia, a lentidão administrativa, a fiscalidade sobre o trabalho qualificado e a dificuldade em transformar conhecimento académico em empresas de escala internacional.
Por vezes, parece que continuamos a olhar para os desafios do século XXI com ferramentas concebidas para resolver problemas do século XX.
Enquanto isso, outros países avançam.
A Irlanda transformou-se através da atração de empresas tecnológicas e talento internacional. Os Países Baixos construíram ecossistemas globais de inovação. Os países nórdicos investiram durante décadas na ligação entre universidades, investigação e empresas. Nenhum destes casos foi resultado do acaso. Foram escolhas estratégicas.
Portugal precisa de fazer o mesmo.
Não basta celebrar a qualidade das universidades ou o reconhecimento internacional dos profissionais portugueses. É necessário criar condições para que esse talento encontre no país as oportunidades que procura. É necessário acelerar a ligação entre investigação e mercado. É necessário apoiar o crescimento empresarial. É necessário tornar as cidades mais acessíveis e competitivas. É necessário compreender que o talento deixou de ser uma questão educativa para se tornar uma questão económica.
Porque o futuro da economia portuguesa será determinado por uma pergunta muito simples.
Conseguiremos transformar o talento que produzimos em crescimento, inovação e prosperidade?
Ou continuaremos a assistir ao mesmo cenário que se repete há décadas?
O mundo está a entrar numa era em que o conhecimento vale mais do que muitos recursos naturais. A inteligência artificial, a tecnologia e a inovação estão a redefinir setores inteiros. Nunca o talento foi tão importante.
E nunca foi tão importante para Portugal perceber que o seu recurso mais valioso não está debaixo da terra nem ao largo da costa.
Continua a estar dentro das universidades, dos laboratórios, das empresas e das salas de aula.
O problema é que, demasiadas vezes, continua também a sair pela porta do aeroporto.
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