Os alemães estão a descobrir no barro aquilo que Portugal sempre teve
Há notícias que nos fazem pensar não apenas sobre inovação, mas também sobre oportunidades perdidas. Recentemente li um artigo numa revista alemã sobre um projeto de construção sustentável desenvolvido para a Landesgartenschau 2028, em Neustadt. À primeira vista parecia apenas mais uma iniciativa ligada à redução das emissões de carbono na construção. Mas quanto mais lia, mais me fazia uma pergunta simples: porque não estamos nós a fazer isto em maior escala?
O projeto utiliza uma nova formulação de betão onde parte dos componentes tradicionais são substituídos por materiais à base de argila, incluindo subprodutos e materiais que anteriormente eram considerados resíduos. O resultado é um betão com menor pegada carbónica, menor consumo energético na sua produção e desempenho estrutural equivalente ao das soluções convencionais.
O mais curioso é que os alemães estão a olhar para um recurso que Portugal conhece há séculos.
O barro.
Portugal construiu uma parte significativa da sua identidade industrial e arquitetónica em torno da cerâmica, do tijolo, da telha e dos revestimentos cerâmicos. Temos algumas das empresas mais competitivas da Europa, exportamos para dezenas de mercados e possuímos conhecimento técnico acumulado ao longo de gerações. Em muitas regiões do país, a argila não é apenas uma matéria-prima. Faz parte da história económica local.
No entanto, continuamos a olhar para estes recursos quase exclusivamente através da ótica tradicional.
Enquanto isso, o mundo começa a descobrir novas utilizações para materiais que sempre estiveram disponíveis.
E a razão é simples.
A construção está a entrar numa transformação profunda. Durante décadas, o debate sobre sustentabilidade esteve concentrado na eficiência energética dos edifícios. Falava-se de isolamento, painéis solares, certificações energéticas e redução dos consumos. Tudo isso continua a ser importante, mas o foco está agora a deslocar-se para outro problema: o carbono incorporado nos materiais de construção.
E aqui o cimento ocupa um lugar central.
A produção de cimento está entre as atividades industriais com maior emissão de dióxido de carbono a nível global. À medida que a pressão regulatória aumenta e os investidores exigem edifícios mais sustentáveis, a procura por materiais alternativos e soluções de baixo carbono cresce rapidamente.
É precisamente neste contexto que projetos como o alemão ganham relevância.
O que me surpreende não é que estejam a desenvolver estas soluções. O que me surpreende é que países como Portugal, com uma forte tradição cerâmica, abundância de matérias-primas e conhecimento industrial consolidado, não estejam na linha da frente desta transformação.
Talvez porque continuamos demasiadas vezes a olhar para os nossos recursos através das lentes do passado.
A mesma argila que durante décadas serviu para fabricar tijolos e telhas poderá vir a desempenhar um papel importante na descarbonização da construção europeia. E isso não é apenas uma questão ambiental. É uma questão industrial, económica e estratégica.
Num momento em que Portugal procura novas áreas de crescimento, novas exportações e maior valor acrescentado para a sua economia, talvez valha a pena olhar para setores que já existem e perguntar como podem evoluir.
Porque a inovação nem sempre surge da criação de algo completamente novo.
Muitas vezes surge quando alguém encontra uma nova utilização para aquilo que sempre esteve disponível.
Os alemães parecem ter percebido isso.
Talvez esteja na altura de nós também percebermos.
Porque enquanto discutimos o futuro da construção, da sustentabilidade e da indústria, podemos estar sentados sobre uma das matérias-primas que ajudará a construir esse futuro.
E a ironia seria enorme se outros países liderassem essa transformação utilizando recursos e conhecimento que Portugal possui há gerações.
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