Portugal passou décadas a procurar investimento. Agora tem de aprender a gerir o sucesso.
Durante grande parte das últimas décadas, Portugal viveu obcecado com uma pergunta: como atrair investimento?
Governos sucederam-se. Agências públicas multiplicaram missões internacionais. Municípios procuraram captar empresas. Associações empresariais organizaram eventos, conferências e fóruns. O objetivo era sempre o mesmo: convencer investidores estrangeiros de que Portugal era um bom local para investir.
Hoje, pela primeira vez em muito tempo, começo a acreditar que estamos perante um problema diferente.
E, curiosamente, muito mais positivo.
O desafio já não parece ser convencer o mundo a olhar para Portugal.
O desafio passa a ser garantir que Portugal consegue responder ao interesse que está a receber.
As recentes declarações do Ministro da Coesão Territorial sobre a criação de novas áreas empresariais inspiradas no modelo de Sines merecem ser lidas com atenção. Não apenas pelo que dizem, mas sobretudo pelo que representam.
Quando um governante admite que é necessário criar novos polos empresariais porque os existentes começam a atingir os seus limites, isso significa que algo mudou.
Durante anos ouvimos falar de falta de investimento.
Hoje começamos a ouvir falar de falta de espaço preparado para receber investimento.
São problemas muito diferentes.
O caso de Sines é particularmente interessante porque representa uma transformação que muitos ainda não compreenderam totalmente.
Durante décadas, Sines foi vista por alguns como um projeto demasiado ambicioso para a realidade portuguesa. Houve quem questionasse infraestruturas, investimentos e opções estratégicas. Hoje tornou-se um dos maiores polos de atração de investimento da Europa, acumulando projetos industriais, energéticos, tecnológicos e logísticos que ultrapassam os 25 mil milhões de euros.
Mas o mais relevante nem sequer são os números.
É aquilo que os números representam.
Quando empresas internacionais escolhem Portugal para instalar centros de dados, projetos energéticos, unidades industriais avançadas ou infraestruturas críticas, não estão apenas a investir em território.
Estão a investir numa visão de futuro.
Estão a apostar que Portugal pode desempenhar um papel relevante na nova economia europeia.
E essa é uma mudança profunda.
Durante muitos anos fomos vistos como um mercado periférico.
Hoje começamos a surgir nos mapas da energia, dos dados, da inteligência artificial, das telecomunicações e da inovação tecnológica.
Não por acaso.
Mas porque várias das grandes tendências globais começam a favorecer algumas das características que Portugal possui.
Temos energia renovável.
Temos localização atlântica.
Temos conectividade internacional.
Temos estabilidade política.
Temos segurança.
Temos talento.
E temos uma posição geográfica que volta a ganhar importância numa economia cada vez mais dependente de dados, energia e cadeias logísticas resilientes.
O problema é que continuamos muitas vezes a discutir Portugal como se ainda estivéssemos nos anos noventa.
Enquanto o mundo debate inteligência artificial, soberania digital, segurança energética e infraestruturas críticas, uma parte significativa do debate nacional continua presa a temas importantes, mas insuficientes para responder aos desafios das próximas décadas.
A verdade é que os grandes investimentos que estão a chegar não se limitam a criar emprego.
Criam cidades.
Criam novas necessidades habitacionais.
Criam procura por escolas.
Criam procura por serviços de saúde.
Criam procura por mobilidade.
Criam novas cadeias de fornecedores.
Criam novos ecossistemas económicos.
E talvez seja precisamente aqui que reside o maior desafio.
Portugal tem tradição em discutir investimento.
Mas tem muito menos experiência em gerir crescimento acelerado.
Basta olhar para aquilo que aconteceu em várias regiões onde o crescimento económico chegou mais depressa do que o planeamento urbano. A habitação tornou-se escassa. As infraestruturas ficaram sob pressão. Os serviços públicos demoraram a acompanhar a nova realidade.
Se queremos evitar repetir esses erros, precisamos de começar a pensar de forma diferente.
Um data center não é apenas um edifício tecnológico.
Uma fábrica não é apenas uma unidade industrial.
Um grande investimento não é apenas uma linha num relatório económico.
São pessoas.
São famílias.
São comunidades.
São cidades inteiras que podem transformar-se.
É por isso que considero particularmente importante a intenção de criar novos polos empresariais distribuídos pelo território nacional. Não apenas porque aumentam a capacidade de atrair investimento, mas porque podem contribuir para algo que Portugal procura há décadas: uma maior coesão territorial.
Talvez pela primeira vez exista a oportunidade de criar novos centros de desenvolvimento fora dos locais tradicionais.
No interior.
No Centro.
No Norte.
Em regiões que durante demasiado tempo assistiram à concentração do crescimento económico noutros territórios.
Mas para que isso aconteça será necessária uma palavra que nem sempre associamos à administração portuguesa.
Execução.
Porque o mundo não espera.
Os investimentos não esperam.
O talento não espera.
As empresas escolhem rapidamente os locais onde querem crescer.
E a competição internacional é feroz.
Talvez por isso a notícia mais importante destas últimas semanas não seja a existência de mais projetos ou de mais investimento.
A notícia mais importante é outra.
Portugal começa finalmente a enfrentar um problema que durante décadas desejou ter.
O problema já não é convencer o mundo a investir no país.
O problema é garantir que o país está preparado para aproveitar essa oportunidade.
E, sinceramente, prefiro mil vezes este desafio ao contrário.
Porque os países não crescem quando discutem eternamente como atrair investimento.
Crescem quando aprendem a transformar investimento em prosperidade, inovação, talento e qualidade de vida.
Portugal pode estar finalmente a chegar a esse momento.
Agora resta saber se teremos a coragem e a capacidade de o aproveitar.
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