Portugal na economia da IA: já não é promessa
Há uma tendência em Portugal para desvalorizar aquilo que está a acontecer mesmo à nossa frente. Fala-se constantemente do que falta, do que está mal, do que não funciona. Mas raramente se olha com atenção para os sinais claros de transformação que já estão no terreno. O anúncio da CONKORD é um desses sinais. E não é pequeno.
Um grupo tecnológico com presença global, mais de 550 especialistas, milhares de projetos em dezenas de países e agora um plano claro de reforço de talento em Inteligência Artificial não é apenas mais uma empresa a contratar. É a prova de que Portugal já não está apenas a assistir à revolução tecnológica. Está a participar nela.
E isto muda tudo.
A CONKORD representa algo que durante anos foi apontado como uma fragilidade do país: a incapacidade de escalar, de internacionalizar e de competir em áreas tecnológicas de elevado valor acrescentado. Hoje, essa narrativa começa a cair. Não por discursos políticos, mas por empresas que crescem, que exportam conhecimento e que atraem projetos complexos à escala global.
O mais relevante neste anúncio não são apenas as vagas. É o que está por trás delas. A decisão de investir fortemente em talento de Inteligência Artificial mostra que a procura existe, que os projetos estão a crescer e que há espaço para Portugal se posicionar como um hub relevante nesta área. E quando há procura internacional por soluções desenvolvidas a partir de Portugal, estamos perante algo estrutural, não conjuntural.
Mas há aqui um ponto que não pode ser ignorado. O talento não aparece por geração espontânea. Precisa de ser formado, atraído e, sobretudo, retido. E é aqui que o país continua a ter um desafio sério. Continuamos a perder demasiados jovens qualificados para outros mercados. Continuamos a ter um sistema que, muitas vezes, não acompanha a velocidade das empresas. E continuamos a discutir temas que pouco têm a ver com o futuro da economia.
Enquanto isso, empresas como a CONKORD estão a fazer o seu caminho. Estão a criar oportunidades, a formar pessoas, a integrar talento jovem e a colocá-lo em projetos internacionais. As vagas para recém-licenciados na área de IA e dados são particularmente relevantes, porque mostram uma preocupação em construir base, não apenas em contratar experiência. Isso é visão de longo prazo.
E isto liga-se diretamente a algo maior: o posicionamento de Portugal na economia digital. Projetos como Sines, investimentos em data centers, crescimento do ecossistema tecnológico e agora empresas que escalam em inteligência artificial criam um efeito de rede. Quanto mais massa crítica existir, mais investimento chega. Quanto mais investimento chega, mais talento é necessário. E assim se constrói um ecossistema.
Mas esse ecossistema não cresce sozinho. Precisa de condições. Precisa de universidades alinhadas com as necessidades do mercado, de políticas que incentivem a inovação, de flexibilidade laboral e de uma administração pública que não seja um entrave. Precisa, acima de tudo, de uma mentalidade diferente.
Porque no final do dia, o maior risco não é a falta de oportunidades. É a incapacidade de as reconhecer.
A CONKORD não é um caso isolado. É parte de um movimento maior que está a ganhar força. Um movimento que pode colocar Portugal numa posição muito mais relevante na economia global do que muitos imaginam.
A questão é simples: vamos acompanhar ou vamos continuar distraídos?
Porque enquanto se discute o passado, há quem esteja a construir o futuro. E, desta vez, esse futuro está também a ser construído a partir de Portugal.
 
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